mind gushes #4

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O meu inverno foi rigoroso, a chuva e o vento assolaram todas as minhas plantações, uma inundação permanente de tristezas acumuladas revogou qualquer sensação de prazer que a brisa costumava trazer quando soprava, ainda que forte, sobre o meu cabelo húmido. Depois disso veio a neve, cobriu elegantemente toda a força que restava em mim e congelou todo o meu corpo. A sua maciez não foi o suficiente para esconder o sentimento penoso que a minh’alma acartava, e então a neve virou gelo inquebrável enquanto pensava nele, e sem saber o que fazer com aquele friozinho na barriga acabei por esfriar também o meu coração. As águas não pararam de correr à medida que a primavera se foi instalando e apesar do florescer da natureza eu continuava murcha por dentro. Novas vidas e novas sensações continuamente brotavam à minha volta e o meu ser incauto limitava-se a vaguear na imensidão do nada tentando evitar obstáculos maiores que o fizessem tropeçar e cair. Não tinha a certeza se me iria conseguir levantar caso tal acontecesse pois estava já tão perto do solo fazia tanto tempo… como é que uma alma tão grande se subjuga a um corpo tão pequeno, sentia-me minúscula. E como todas as primaveras até então esta também tardou a aquecer mas, quando menos esperava surgiu o primeiro raio de sol, beijou os meus lábios de mansinho e foi aquentando o máximo que pôde, aqueceu até acabar por queimar a minha pele de tal maneira que a única solução se tornou a água salgada, quer fosse das lágrimas, do suor ou do mar. E assim chegou o verão, bem de mansinho a avisar receitas perfeitas para o desastre… eu nunca subestimei a minha capacidade para piorar as coisas e ainda assim consigo surpreender-me de cada vez que o faço, talvez tenha o dom do fracasso. A primavera trouxe-te e levou-te de mim, e o verão talvez queira brincar um pouco mais comigo ao pôr-te de novo no meu caminho Este calor dentro de mim é insuportável e eu não sei o que fazer com ele, já nem o gelo do meu coração me refresca a alma, só as palavras continuam a aliviar a dor de sentir tudo tão extremamente… pergunto-me o que será do outono, quando o vento voltar e as folhas caírem desnudando de novo a vida, pergunto-me se ainda estarás cá para assistir ao passar do tempo comigo. Pergunto-me o que será de tudo isto, de ti, de mim, quando as chuvas voltarem a bradar do céu que insiste em continuar a desabar sobre mim sempre que me ergo um pouco mais…

PassionFruit

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